Hoje quero lhes contar uma história maravilhosa sobre merecimento!
Lendo o livro "Transformando suor em Ouro", do Bernardinho, me chamou a atenção umas das histórias da Seleção Masculina de Vôlei.
"Ser campeão do mundo é ótimo, motivo de alegria, de orgulho. Mas e depois? Como seguir em frente pensando na competição seguinte após conquistar um título mundial? Minha cabeça estava focada nos nossos próximos desafios. Ao encontrar-me no dia seguinte com a equipe no aeroporto, dei-lhes os merecidos parabéns, mas tratei de antecipar o que seria diferente em 2003.
-Vamos começar a treinar às oito da manhã.
Protestos veementes...Sempre lancei mão desse e de outros recursos- que chamo "zona de conforto"- para evitar que achassem que todas as suas metas já tivessem sido atingidas.
O combate à acomodação é permanente.
Iniciamos a preparação em 2003 com uma viagem para a Holanda e Espanha, onde faríamos uma série de jogos amistosos...Fizemos escala em vários países antes de chegar a Amsterdã. Nossos jogadores com mais de dois metros de altura, sempre desconfortavelmente encolhidos na classe econômica. Foram mais de 20 horas de voo que normalmente é feito em 13 ou 14 horas. Um sufoco.
Queria treinar assim que chegássemos, não importava o quanto estivéssemos cansados pela viagem. O funcionário da Federação Holandesa, avisou que não poderia haver treino naquele dia.
-Hoje é 30 de Abril, é feriado, aniversário de coroação da rainha Beatriz. Está tudo fechado.
Ainda tentei de todas as formas convencer o homem, mas não houve jeito. Chegando ao hotel, vi que existia um estacionamento ao lado. Ao vê-lo vazio, com um asfalto bonito, lisinho, pensei: "É aqui mesmo".
Treinamos, todo mundo emburrado. Por uma semana não me dirigiram a palavra. Mas tudo passa. E o mais importante: os jogadores conseguiram manter o condicionamento físico.
Depois de uma fase classificatória muito intensa, chegamos às finais da Liga Mundial na Espanha. Chegamos à final contra Sérvia e Montenegro, sem dúvida uma das partidas mais emocionantes de nossa trajetória. Os números do tie break não mentem. No quarto set, os sérvios estavam vencendo por 2 a 1 e 8-4, mas conseguimos virar o set com técnica e coragem. No quinto set tivemos seis match points contrários, conseguimos resistir e fechamos o jogo em
31-29.
Esse resultado ilustra bem o que separa um grande triunfo de uma amarga desilusão: no caso do vôlei, somente dois pontos. O céu para o vencedor, o inferno para o perdedor.
De volta ao Brasil, na entrevista coletiva que demos ainda no aeroporto de Cumbica, a primeira pergunta que os jogadores ouviram foi: "Como vocês conseguiram dar aquela virada?" A resposta: "Este ano nós não perderíamos, pois esse maluco nos fez treinar até no asfalto de um estacionamento."
Acredito que na tese de que a vitória por uma diferença mínima (no vôlei dois pontos), tende a favorecer aqueles que desenvolvem um sentimento fundamental para esses momentos decisivos-
o do merecimento. Isso mesmo. Fizemos tanto por merecer que não permitiremos que nos tirem o que buscamos com muita luta.
Esse sentimento se contrapõe ao pior que pode existir- o arrependimento: "Se eu tivesse me preparado mais" ou "Se eu tivesse estudado mais...". Quando alguém se questiona dessa forma, são grandes as chances de os "dois pontos" já terem passado pro outro lado.
Há ainda mais uma lição valiosa ilustrada nessa final equilibrada: a consciência da urgência, a percepção de que não se pode desperdiçar nenhuma chance de dar o melhor de si.
É preciso jogar cada ponto como se fosse o último. E entender cada oportunidade como se fosse a mais importante."
Bernardinho sabe como ninguém como transformar suor em ouro!
Espero que gostem deste post, pois no próximos falarei um pouco da trajetória deste grande técnico e como ele consegue, como ninguém, fazer uma seleção representar toda uma nação.